Ela me veio como um instrumento para manter a assepsia no lar.
Quando cruzei os olhos nela, eu já sabia. Intuição de quem possui um caso particular com o que não é dito.
Segurei-a em meus braços. Como quem se identifica com o outro Ser, fui recepcionada com um carinhoso arranhão. Até meu companheiro, receoso por ser alérgico à pêlo, se rendeu aos encantos da gata. Eu acredito que o amor da gata o curou.
Quando ela me olha, tenho a sensação de escutá-la, lá no fundo do meu inconsciente. Quando eu a pego nos braços, sei exatamente o que ela diz. Parece estranho? No começo eu achava.
De tudo o que eu já conheci, ela é o Ser mais parecido comigo. Eu não tenho nenhuma vergonha em comparar-me com uma gata, porque eu entendo que os animais, assim como as plantas, também estão em processos evolutivos nesta terra.
Eles até parecem mais racionais do que o próprio homem. O homem é o único animal que destrói a sua morada.
Ela arranca de mim o sorriso mais aberto, aquele mais difícil de soltar.
Eu aprendo com ela a ser atenta sem perder a leveza, a encontrar alegria nas coisas simples da vida, a Ser da forma mais verdadeira.
Ela despertou aspectos da mulher selvagem perdida em mim.
Hoje, mais do que instrumento, ela se tornou uma extensão de mim. E eu, reverbero um pouco do que ela é.
Adotei uma gata que se chama Kayra, mas na verdade foi ela que me adotou.
Eu pensei que estava praticando um ato de compaixão, mas foi ela que teve uma profunda e inexplicável compaixão por mim.
Ela sempre me chama para a vida.
É ela também que me ensina a não perder jamais a esperança na humanidade.
Alguns podem até acharem engraçado todo esse texto falando de uma gata, mas para os que não acreditam na função sublime de um animal, eu digo que: Eles ensinam homens, mulheres e crianças o amor sincero pela humanidade.


















